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A Justiça anda rápido demais (nos doramas)

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Liege Albuquerque

A Justiça também pode correr. Nos doramas com temas jurídicos, ela corre com música tensa, corredores iluminados, personagens que chegam à verdade no último minuto. Corre porque o roteiro exige. Corre porque o episódio acaba. Corre porque o público precisa acreditar que alguém, em algum lugar, está no controle, e que ele até pode maratonar a série para acelerar o processo.

Fora da ficção, a Justiça corre de outro jeito. Corre por planilhas. Corre por metas. Corre por sistemas que contam processos como quem conta grãos. E, quando corre demais, deixa gente para trás.

Os doramas jurídicos sul-coreanos captaram esse desconforto contemporâneo: tribunais pressionados por produtividade, decisões padronizadas, vidas reduzidas a números. Em Stranger (2017–2020, Netflix), a engrenagem aparece silenciosa e fria. Em Juvenile Justice (2022, Netflix), ela pesa sobre adolescentes. Em One Dollar Lawyer (2022, Disney+), sobre corpos pobres.

Em Vincenzo (2021, Netflix), sobre quem quase nunca é alcançado por ela. Já em Uma Advogada Extraordinária (2022, Netflix), talvez por ser a mais fofa de todas, a série tornou-se um fenômeno global ao expor, de forma sensível e acessível, a trajetória de uma advogada com transtorno do espectro autista, cuja memória excepcional e capacidade analítica contrastam com as limitações institucionais e culturais do Judiciário.


Mais recentemente, séries como Pro Bono (2025, Netflix), Além do Direito (2025, Netflix) e Doutor Advogado (2023, Disney+) deslocam o foco para outro território sensível: o da responsabilidade profissional, da culpa e da tentativa de reparação quando a técnica falha ou quando o sistema demora em responder. No Brasil, essa corrida tem outro ritmo, mas efeitos conhecidos.


(Stranger — 2017–2020, Netflix)
Em Stranger, quase ninguém levanta a voz. O sistema não precisa. Ele opera dentro da legalidade, protegido por ritos, cargos e linguagem técnica. No episódio 7 da primeira temporada, uma investigação é paralisada não por ausência de provas, mas por disputa de competência entre instituições. A injustiça não nasce do excesso, mas da repetição.
No Brasil, a violação de direitos também costuma ser silenciosa. A prisão provisória que se alonga além do razoável. O pedido de liberdade que aguarda análise. A audiência que não acontece. Dados do Sistema de Informações do Departamento Penitenciário Nacional (Sisdepen) indicam que milhares de pessoas permanecem presas sem sentença definitiva, muitas vezes não por decisão expressa de punição, mas por inércia institucional. No relatório de Janeiro a Junho de 2025, o Brasil tinha cerca de 200.426 presos provisórios em celas físicas (sem condenação definitiva registrada)


(Juvenile Justice — 2022, Netflix)
Em Juvenile Justice, a juíza olha para adolescentes e vê o que veio antes do crime: abandono, pobreza, violência. No episódio 6, um jovem reincidente revela uma trajetória marcada pela ausência completa de políticas públicas. Ela hesita. Questiona. Sofre.
No Brasil, magistrados também hesitam. Mas a hesitação individual raramente interrompe fluxos institucionais que seguem produzindo internações e medidas restritivas aplicadas de forma quase automática.


(One Dollar Lawyer — 2022, Disney+ | Pro Bono — 2025, Netflix)
Em One Dollar Lawyer, o advogado aparece quando tudo parece perdido. No episódio 2, ele desmonta uma acusação construída sobre provas frágeis e confissão induzida. Ele entende o processo, encontra a falha, fala por quem não sabe falar.
Pro Bono desloca esse olhar para a advocacia de interesse público. No arco central da série (episódios 4 a 6), a narrativa acompanha defensores exaustos diante da escolha impossível: atender um caso urgente significa abandonar outros tantos invisíveis. O conflito não está apenas no tribunal, mas na escassez de recursos.
No Brasil, a defesa pública existe, mas chega sobrecarregada. Mutirões carcerários revelam pessoas aguardando anos por análises simples. O direito de defesa não falha por falta de heróis, mas por falta de condições mínimas para existir.

(Doutor Advogado — 2023, Disney+)
Em Doutor Advogado, um cirurgião abandona a medicina após um erro médico que redefine sua trajetória. No episódio 1, o procedimento que falha não é tratado como clímax, mas como ruptura. Ele não foge da culpa: muda de campo. Entra no Direito para enfrentar, por outra via, os sistemas que produzem dano, silêncio e assimetria entre quem decide e quem sofre as consequências.
A série não trata o erro como espetáculo. Trata como memória persistente. O personagem carrega o corpo que não pôde salvar e passa a lidar com outros corpos, agora atravessados por processos, laudos e linguagem jurídica
No Amazonas, o caso do menino Benício, amplamente acompanhado pela sociedade e pelas instituições, também expôs o impacto profundo de um evento médico adverso sobre famílias inteiras, profissionais de saúde e o próprio sistema de responsabilização. Sem antecipar conclusões nem atribuir culpas, o caso revelou algo estrutural: a dificuldade de lidar com o erro em ambientes que operam sob pressão, escassez de recursos e respostas tardias.
O paralelo com a ficção não está na equivalência dos fatos, mas na pergunta incômoda que ambos levantam:
o que acontece quando a técnica falha e o sistema não oferece respostas à altura da dor produzida?

(Vincenzo — 2021, Netflix)
Em Vincenzo, a Justiça formal parece incapaz de alcançar os poderosos. No episódio 8, a violência surge como solução narrativa para aquilo que o direito não alcança. Funciona no roteiro. Alivia o espectador. A história brasileira mostra que atalhos quase sempre cobram a conta dos mesmos corpos. A exceção nunca permanece excepcional.

(Além do Direito — 2025, Netflix)
Além do Direito abandona finais redentores. No episódio final (spoiler), nenhuma decisão encerra completamente o dano causado. Há vitórias formais, mas perdas irreparáveis. Silêncios que permanecem. Talvez por isso se aproxime mais da experiência real de quem atua no sistema de Justiça.

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Autoria
Liege Albuquerque

Liege Albuquerque é jornalista há 30 anos, graduada em Jornalismo pela Ufam e mestre em Ciências Políticas pela USP. Teve passagem por veículos como Folha de S. Paulo, Veja, O Globo, O Estado de S. Paulo, A Crítica e Diário do Amazonas. Foi ainda correspondente de O Estado de S. Paulo no Amazonas e professora de Jornalismo na Uninorte, Nilton Lins e Fametro. Atualmente é redatora efetiva na Câmara Municipal de Manaus.

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