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Liege Albuquerque

“O Poder e a Lei” coloca o advogado do Lincoln do outro lado da cela

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A quarta temporada de O Poder e a Lei opera uma inversão tardia, mas estrutural, da engrenagem que sustentou a série desde o início. Ao colocar Mickey Haller (Manuel Garcia-Rulfo, um charmoso Al Pacino jovem) atrás das grades, acusado de homicídio e obrigado a lutar por sua própria inocência, a produção finalmente abandona a posição confortável do advogado que manipula o sistema a partir de dentro e se vê compelida a observar a Justiça a partir de seu ponto mais vulnerável: o do acusado que perde controle sobre o tempo, a narrativa e o próprio corpo.

Em uma das cenas tocantes desta temporada, a filha de Mickey sai chorando da primeira visita ao pai na prisão, e ele comenta: “Eu não quero que ela venha mais aqui. Já tive clientes que me pediram isso, dos filhos não o visitarem na cadeia, e agora eu entendo”.

A série é inspirada em livros do ex-repórter policial Michael Connely, que disse em entrevista que a maioria dos casos do ficctício Mickey, que anda para relaxar num Lincoln azul (por isso o título original The Lincoln Lawyer), foi inspirada no advogado de Los Angeles David Ogden, falecido em 2020.

Nesta quarta temporada a virada é coerente com o histórico da série, mas também reveladora de seus limites. Desde a primeira temporada, O Poder e a Lei construiu sua identidade sobre a ambiguidade moral do êxito jurídico. No primeiro cas, de Trevor Elliot, Mickey vencia sabendo que a vitória não correspondia à verdade. Na segunda temporada, ao defender Lisa Trammell, a narrativa flertava com a ideia de que réus podem dominar o teatro judicial com a mesma destreza de seus advogados. Já na terceira, ao deslocar o foco para o assassinato de um promotor, o enredo insinuava que o sistema é menos uma arena de justiça do que um campo de forças institucionais.

A quarta temporada leva essa lógica às últimas consequências ao retirar de Mickey seus principais instrumentos: mobilidade, prestígio e acesso. Preso, ele não performa mais para o júri, e sim passa a depender de terceiros, de informações fragmentadas e de um sistema que não responde à urgência de quem está do lado errado da cela. A série acerta ao transformar o encarceramento em eixo narrativo, expondo o caráter burocrático, indiferente e, por vezes, arbitrário da máquina penal.

Essa mudança de perspectiva afeta diretamente o ritmo da narrativa. Os episódios são mais lentos, menos baseados em reviravoltas retóricas e mais atentos à espera, com audiências adiadas, visitas limitadas, negociações truncadas. Ainda assim, a série demonstra certa hesitação em explorar plenamente o desconforto que essa situação oferece. Em vez de aprofundar a experiência do encarceramento como forma de violência institucional, recorre com frequência a soluções familiares, preservando a lógica do suspense jurídico tradicional.

Um dos núcleos que melhor exemplificam essa ambivalência é o da relação entre Mickey e sua amante, a chef Andrea Freeman, interpretada por Lana Parrilla, conhecida por viver Regina Mills em Once Upon a Time. Na quarta temporada, Andrea deixa de ocupar o papel de apoio afetivo ambíguo para assumir uma função dramática mais corrosiva. Ressentida, emocionalmente instável e gradualmente revelada como mentirosa, ela se torna peça-chave não apenas no colapso pessoal de Mickey, mas na própria construção da acusação.

A série trabalha Andrea menos como vilã clássica e mais como síntese de ressentimentos mal elaborados, afetos instrumentalizados e narrativas manipuladas, quase um espelhamento doméstico das estratégias que Mickey sempre utilizou nos tribunais. Há ironia nessa escolha, de o advogado que construiu sua carreira desconfiando de versões alheias se vê agora preso à versão de alguém que dizia conhecer intimamente. Lana Parrilla entrega uma atuação contida, mas eficaz, explorando silêncios, hesitações e contradições que tornam a personagem mais inquietante do que explicitamente perversa.

Manuel Garcia-Rulfo ajusta sua interpretação à nova condição de Mickey. Seu personagem é menos carismático e mais defensivo, menos brilhante e mais exausto. Mas conta com a fidelidade de seus amigos e funcionários do escritório como sempre, além da ex-esposa que muda de cidade para defendê-lo.

A eloquência brilhante de Mickey nesta temporada cede espaço ao cálculo silencioso, à ansiedade mal disfarçada e à percepção de que o conhecimento jurídico pouco vale quando o sistema já decidiu avançar sobre o indivíduo. O desgaste físico e psicológico do protagonita funciona como comentário implícito sobre a fragilidade das garantias que ele sempre afirmou dominar.

Do ponto de vista temático, a quarta temporada é a mais explicitamente política da série, ainda que nem sempre seja a mais radical e é a mais “lenta” de todas. Ao mostrar como acusações se sustentam em narrativas frágeis, interesses cruzados e versões convenientes, O Poder e a Lei reforça uma tese incômoda: o sistema de Justiça não é movido prioritariamente pela busca da verdade, mas pela necessidade de encerrar casos, produzir resultados e preservar hierarquias.

Ainda assim, a série parece relutar em romper completamente com seu próprio conforto narrativo. O risco maior, de mostrar que a inocência pode não ser suficiente para evitar a destruição, é constantemente contornado por soluções que reafirmam a centralidade de Mickey e sua capacidade de reagir, mesmo em desvantagem.

A quarta temporada de O Poder e a Lei é, digamos, a menos elegante de todas, mas mais honesta em suas premissas. Ao colocar Mickey na posição de quem não controla o jogo, a série se aproxima de uma verdade que sempre orbitou seu discurso, mas raramente enfrentou de frente: no sistema que retrata, o poder da lei não reside em sua justiça, mas em sua capacidade de esmagar, seletivamente, aqueles que deixam de ser úteis.

4
O poder e a lei - Quarta Temporada (Netflix)
Resumo

A quarta temporada de O Poder e a Lei promove uma virada estrutural ao colocar Mickey Haller atrás das grades, forçando a série a olhar o sistema de Justiça a partir da posição do acusado. Privado de mobilidade, prestígio e controle, o protagonista vivencia a burocracia, a lentidão e a arbitrariedade da máquina penal, o que altera o ritmo e o tom da narrativa. A temporada expõe com mais clareza a ambiguidade moral que sempre definiu a série, agora levada às últimas consequências. O arco com Andrea Freeman, amante ressentida e gradualmente revelada como mentirosa, reforça o tema das narrativas manipuladas. Embora nem sempre radical, esta é a fase mais política e honesta da produção ao sugerir que o poder da lei reside menos na justiça e mais em sua capacidade de esmagar seletivamente.

The Pros
A transição de Mickey Haller de estrategista para vítima da burocracia judicial é, sem dúvida, o ponto alto dessa temporada. É um "choque de realidade" para o personagem que antes via o sistema apenas como um tabuleiro de xadrez.
The Cons
A série sempre foi conhecida pelo seu "ritmo de cruzeiro" com Mickey no banco de trás do Lincoln, relaxando ou resolvendo casos enquanto circula pela ensolarada Los Angeles. Essa temporada é mais arrastada, talvez pelo confinamento no tribunal e menos fora.
  • Roteiro4
  • Elenco4
  • Ambientação4
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Autoria
Liege Albuquerque

Liege Albuquerque é jornalista há 30 anos, graduada em Jornalismo pela Ufam e mestre em Ciências Políticas pela USP. Teve passagem por veículos como Folha de S. Paulo, Veja, O Globo, O Estado de S. Paulo, A Crítica e Diário do Amazonas. Foi ainda correspondente de O Estado de S. Paulo no Amazonas e professora de Jornalismo na Uninorte, Nilton Lins e Fametro. Atualmente é redatora efetiva na Câmara Municipal de Manaus.

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