2026 chegou! Chegou com a euforia de todo novo ano. Cheio de esperança, de planos e de promessas. Na última trende de 2025 vimos as pessoas dedicadas a um exercício matemático, na busca de descobrir o seu número e a cor correspondente, a fim de entrar o ano acreditando que a numerologia vai dar uma mãozinha para a realização dos desejos e resoluções de ano novo. Então esse ano, mais do que nos anteriores, o branco, embora ainda predominante, dividiu espaço com o amarelo, o vermelho, o azul, o verde e muito mais. Foi, com certeza, um reveillon colorido.
E, por falar em cores, vamos falar do branco e do preto. Vamos falar de racismo.
Somos um país multiracial. Na minha casa, eu sou a que tem a pele mais escura. E, mesmo tebdo sido criada em uma família esclarecida e progressista, vou relatar aqui o preconceito que sofri na infância ainda dentro de casa.
Voltemos no tempo aos idos de 1978. Em casa, éramos meu pai, minha mãe, eu e 3 irmãos. Sou a segunda filha. Morávamos em uma casa de um conjunto habitacional no bairro Parque 10 e o rádio fazia parte do nosso cotidiano. Lembro do meu avô ouvindo jogos de futebol com o rádio no ombro. E, em casa, o aparelho estava sempre sintonizado em alguma das poucas rádios que existiam na Manaus de antanho. Para completar, na casa dos nossos vizinhos, com quem brincávamos quase que diariamente, trabalhava uma empregada doméstica que passava o dia inteiro ouvindo rádio. Arrumava a casa, lavava roupa e cuidava do almoço, sempre sintonizada na rádio de sua preferência. E assim nós crescemos ouvindo rádio.
E quem costuma ouvir rádio está habituado a ouvir a palavra mega hertz. Curiosidade nunca foi e não é uma característica que eu carregue, então devo confessar que só fui descobrir o significado de megahertz ao escolher falar de racismo neste espaço.
Se você, diferentemente de mim, conhece o significado da palavra, deve estar imaginando que eu enlouqueci. Afinal, o que uma coisa tem a ver com a outra?
Eu explico.
Para que a história faça sentido, lembrem que eu sou fruto da miscigenação brasileira. Na minha ancestralidade há negros, índios e brancos. Sou a segunda filha de quatro irmãos e a que tem a pele mais escura.
O cenário é este: quatro irmãos crescendo em uma casa onde o rádio repetia cotidiana e insistentemente a cada comercial qual a sintonia da emissora. A que mais eu tenho lembrança é a Radio Difusora, sintonizada desde quando eu não me entendia por gente em 96.9 MHz.
Um dos nossos vizinhos achou por bem me apelidar de Negahertz e a partir dali o bullying nasceu na nossa família.
Era só o locutor anunciar a frequência e lá vinha meu irmão mais velho implicar comigo, chamando- me de Negahertz em uma alusão depreciativa à raça negra. E ali, eu ainda menina, me sentia inferior pela alusão de que eu era a “neguinha”. Não lembro se meu irmão era repreendido, mas acredito firmemente que meus pais nem tomavam conhecimento. Se tivessem conhecimento, talvez o repreendessem, ou talvez entenderiam aquilo como uma brincadeira de criança. Mas a verdade é que aquela brincadeira revelava a ideia de pessoas superiores e de pessoas inferiores. E eu, criança, sem compreender que se tratava de racismo, queria apenas não ser negra. Queria ter a pele mais clara como meus irmãos e retrucava que eu não era negra, pois meu cabelo era liso. Pode parecer tolice, mas é dor. E, se dói, não pode ser ignorado. Na minha vivência, experimentei outros episódios racistas. Alguns disfarçados de brincadeira, outros não. Com certeza, um fragmento apenas do que vivem negros e negras no nosso país. Mas posso dizer que conheço um pouco dessa dor. Felizmente, crescemos todos e compreendemos que nosso comportamento era preconceituoso. O dele, de intencionar me ofender pela cor da minha pele, e o meu, de me sentir ofendida pela cor da minha pele. Percebemos que aquela brincadeira era reflexo de uma sociedade que historicamente trata de forma desigual as pessoas em razão da cor da sua pele e que tolera brincadeiras desse tip. E essa percepção nos tornou antiracistas. Não aceitamos brincadeiras racistas e eu passei a ter orgulho de ser a Negahertz da família. Porque não basta não ser racista. É preciso reconhecer que ainda vivemos em um país racista e há que se lutar contra o preconceito.
O ano novo entrou colorido, porém é importante lembrar que o branco, tão largamente usado no Ano Novo, por brancos racistas inclusive, tem origem nas religiões como Candomblé e Umbanda, ambas dr matriz africana.
Tomara que a diversidade de cores usadas nesse Ano Novo seja prenúncio de nos distanciarmos cada vez mais do preconceito racial. Afinal, assim como a cor da roupa que vestimos não nos torna melhor nem pior do que ninguém, a cor da nossa pele também não deveria fazer diferença em tratamentos e oportunidades.
O amarelo que você usou para entrar o ano não vai lhe garantir riqueza e nem o vermelho vai lhe trazer o amor, mas a sua decisão de refletir sobre seu comportamento e de reagir diante de situações racistas pode ajudar a mudar a triste realidade desse país.
Um 2026 Preto e feliz para todos!
Obrigada por dividir conosco essa vivência, escrita de forma tão sensível. Passei por tantos episódios dessa natureza também. O racismo é reatualizado todos os dias e não há outro caminho para mudança senão o antirracismo.